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Página IncialArtigos e discursosDiscurso sobre ajustes de Levy agrava a crise, aumenta o desemprego e cassa direitos

Discurso sobre ajustes de Levy agrava a crise, aumenta o desemprego e cassa direitos

Nas últimas semanas, tenho conversado diariamente, e por mais de uma vez ao dia, com economistas brasileiros. E deles, indistintamente, recolho as previsões funestas, caso o ajuste-Levy  seja aprovado também por esta Casa.

O ajuste, por ser intrinsecamente recessivo, vai agravar ainda mais uma economia já estagnada.

Os economistas estimam que o ajuste-Levy vai nos empurrar para uma contração de, no mínimo, dois por cento, em função dos cortes nos gastos públicos e no crédito ao setor privado, sem que se mencionem os aumentos de impostos sobre a produção.

Somadas a isso, teremos as consequências danosas da Operação Lava Jato, que devem provocar uma contração adicional de três por cento, já que a economia do petróleo representa de 13 a 17 por cento do PIB brasileiro.

Assim,  estamos sob o risco de uma contração de cinco por cento, um índice sem precedentes em nossa história.

As senhoras e os senhores senadores estão dispostos e preparados para aceitar essa responsabilidade?

A responsabilidade por um crescimento negativo de cinco por cento?

Pela elevação do desemprego a taxas de 15 por cento?

Pelos cortes em saúde e educação que vão diminuir a qualidade desses serviços já sofríveis?

Pelo cancelamento de direitos trabalhistas conquistados a duras e ferrenhas lutas?

Qual é a disposição das senhoras e dos senhores?

Ninguém discorda que já estamos mergulhados na crise, em recessão. Esse último Dia das Mães, por exemplo, foi o pior Dia das Mães desde 2003.

Pois bem, em uma situação econômica de tal gravidade, o único ponto de equilíbrio que nos oferecem é o da contração da produção e do emprego. O ponto de equilíbrio da depressão.

O que nós precisamos é de um Programa de Crescimento, de um Projeto de Brasil Nação,  e não de um programa da estabilização da crise.

E por que essa obsessão com o tal ajuste?

Para, supostamente, impedir que as agências de risco desclassifiquem o Brasil.

Precisamos dessa classificação?

Um pequeno arranjo com a China, muito inferior ao que poderia ter sido se fôssemos mais sábios, garantiu-nos 53 bilhões de dólares de crédito só numa tacada. Sem pedir licença a agência de risco alguma.

E aceitando a necessidade, como toda economia tem em todos os tempos, de aumentar temporariamente a dívida pública, para depois diminuí-la, quando a economia se recuperar.

Aumentar a dívida pública?

Oh horror! Os monetaristas, os discípulos de Friedman, os neoliberais como Joaquim Levy fogem dessa variável como o diabo da cruz. Mesmo que países como os Estados Unidos usem e até abusem do expediente.

Melhorar marginalmente um indicador contábil de endividamento, que já é bom, vale o sofrimento de milhões de famílias?

Pior: a recessão e o aumento de juros não vão melhorar esse indicador.

A experiência histórica de países como a Grécia, e a mera lógica, nos mostram que recessão e aumento de juros não melhoram a relação dívida sobre Pib.

Agora, se o objetivo desse plano for o de desmoralizar governos de esquerda, para que nunca mais voltem a governar este país, o plano tem sentido.

Senhoras e senhores senadores. Nesses dias, o país debate intensamente a precarização do trabalho, com a aprovação na Câmara do projeto de terceirização.

No entanto, está em curso uma precarização muito mais perigosa, letal: a precarização da democracia.

Aprovando este ajuste, tanto o Legislativo quanto o Executivo renunciam sua prerrogativas e transferem ao mercado as suas funções e realizam o ideal neoliberal do Estado mínimo.

Transferimos ao mercado a gestão da economia, dos gastos públicos, das relações políticas e econômicas internacionais, da política de infra-estrutura, do planejamento.

Para nós do Legislativo e para o Executivo sobrará a tarefa da segurança pública. E olha lá….

A nossa já precária democracia tornar-se-á mais débil, vacilante e errática do que é hoje.

Mirem na Europa. Vejam o que o mercado fez com as democracias, não apenas de Portugal, Espanha, Itália e Grécia, mas sim também as da França, Alemanha e Inglaterra.

A precarização da democracia, provocada pela supremacia do mercado levará a civilização a sua maior crise de toda a história.

Não ao ajuste-Levy!

Não à recessão e ao desemprego.

Não prevalência dos interesses do mercado sobre a ventura de vida dos brasileiros.

Não à precarização do trabalho.

Não à precarização da democracia.

Votemos não a ajuste recessivo. Votemos sim ao um Programa para o Brasil.

Senhoras e senhores senadores. Face à incapacidade de muitos de seus contemporâneos de acreditar em Deus, no mundo já liberto das trevas medievais,  Blaise Pascal propunha uma aposta ao céticos.

Assim:

Caso você acredite em Deus, e Deus realmente existir, você terá ganhos infinitos.

Caso você acredite em Deus, mas Deus não existir, a sua perda será finita, extingui-se  com  a sua morte.

Caso você não acredite em Deus, e Deus realmente inexistir, seu ganho também será finito, perecível.

No entanto, se você não acredita em Deus, mas Deus existir, você terá uma perda infinita e padecerá eternamente no fogo do inferno.

Logo, aconselhava Pascal, melhor acreditar. Se ele não existir, você perderá apenas o tempo de uma vida; mas se Deus existir a pena pela descrença será eterna.

Vejo aqui neste plenário dezenas de senadores, especialmente os da base, com o mesmo comportamento oscilante dos apostadores de Pascal.

A base não está convencida que o ajuste de Levy vá dar certo, e nem que os apertos  sejam  a antessala do paraíso.  Mas titubeia, pensando: vai dar errado? Vai dar certo? Devo acreditar? Devo descrer? Se voto contra e der certo? Se voto a favor e der errado?

Enfim, nem mesmo a base tem certeza que de que existe vida depois do plano Levy.

De minha parte, reafirmo a absoluta incredulidade nos tais ajustes levianos. Aposto que vai dar errado e não temo, por ser  assim radicalmente ímpio,  ver  a minha língua queimada.

Eu não entendo, não me é compreensível que esses ajustes, preparados com ingredientes altamente tóxicos, só porque patrocinados por um governo hipoteticamente de esquerda, possam perder o potencial maligno, peçonhento,  destruidor.

Quando, em que circunstâncias, cortes em saúde e educação, arrocho salarial, alta de juros, desemprego,  corte de crédito, aumento de impostos, agiotagem, cancelamento de direitos trabalhistas, quando essa fieira de insanidades produziu efeitos positivos para o país e para o seu povo?

Estarreço-me ver companheiros de uma vida toda de militância antiliberal exporem-se na defesa de tudo aquilo que  abominamos e combatemos.

De outra banda, em um jogo de sinais trocados, de simulação e mascaramento temos a oposição a agitar a bandeira da defesa dos trabalhadores. Pobres trabalhadores, duplamente desamparados, duplamente abandonados.