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Sobre estátuas, memórias e safadezas

Quando Machado de Assis morreu, José Veríssimo, seu colega de Academia Brasileira de Letras, em um artigo homenageando o fundador, dizia: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época”. A referência, mesmo que atenuada, à cor de Machado de Assis provocou escândalo e desconforto naquele Brasil da primeira década do século XX. Foi como que se revelassem pecados horríveis, segredos tenebrosos do maior escritor brasileiro.

Joaquim Nabuco, também acadêmico, indignou-se e escreveu para Veríssimo: “Seu artigo no Jornal está belíssimo, mas esta frase causou-me arrepio: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época”. Eu não o teria chamado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir o artigo a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa. O Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava: quando houvesse sangue estranho, isto em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego”.

Nabuco, tão cultivado pelos nossos intelectuais mais sofisticados, era um liberal (à brasileira) e fora um abolicionista fervoroso, mas não apreciava os negros, para ele, inferiores.

Não somente ele. Se hoje os intelectuais brancos, de nossa elite supostamente ariana, não são tão desabridos em seu preconceito como Joaquim Nabuco (ainda que, como ele, tenham uma pitada de “sangue estranho”) a repulsa aos negros é irrefreável. E manifesta-se como agora, na onda da abominação ao racismo, depois do acontecido em Mineápolis, Estados Unidos.

A derrubada de estátuas de mercadores de escravos, de defensores da escravidão, dos descobridores, conquistadores e colonizadores da África, das Américas, da Ásia e da Oceania, dos genocidas que dizimaram boa parte da população original desses continentes, provocou, também no Brasil interpelações nabucanas.

Embora não tenha havido na pátria tão gentil a vandalização de monumentos que celebram escravocratas e genocidas nacionais, antecipando-se ao gesto radical, os nossos intelectuais postaram-se em guarda em torno das estátuas de Borba Gato, Raposo Tavares, Domingos Jorge Velho, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera (diabo vermelho, em tupi),  Braz Leme, Baltazar Fernandes, Joaquim Pereira Marinho, Duque de Caxias e tantos outros. Tudo em nome da história, da memória, da concretude do passado.

Safados, desonestos disseram: esses monumentos precisam ficar aí para que o povo saiba quem foram e com isso eduque-se contra o racismo, a tortura, o genocídio, não haverá de ser removendo-os que corrigiremos o que já foi.

E por acaso, seus grandessíssimos canalhas, algum bendito livro de história do Brasil diz quem foram esses homens celebrados em rodovias, cidades, escolas, ruas, avenidas, praças, edifícios, parques e monumentos? Alguma das nossas criancinhas responderá à pergunta quem foi Raposo Tavares que o dito distinguiu-se como o maior escravizador (logo o maior matador) de índios da história brasileira? Reptada em aula, a jovem universitária saberá dizer que Joaquim Pereira Marinho tornou-se biliardário comerciando carne negra? Que José Bonifácio, o Duque de Caxias e tantas outras ilustríssimas e cultuadas figuras de nossa história foram escravocratas convictos?

Não se propõe aqui pulverizá-los, destroçá-los, enterrá-los em valas comuns ou deixá-los expostos à calcinação do tempo, como eles faziam com índios e negros.

O que se quer é um acerto de contas. Um acerto de contas com o nosso passado escravocrata, genocida, espoliador e expropriador. Um acerto de conta com todas as lutas e acontecimentos inglórios da nossa história. Um acerto de contas com todos os golpes, como os de 1889, de 37, de 45, de 64, de 2015. Um reconhecimento das contas com a Confederação do Equador, Farroupilha, Canudos, Contestado, Caldeirão de Santa Cruz, com o Araguaia, com os Lanceiros Negros, com as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, com os massacres do Carandiru e da Lapa, de Paraisópolis.

Mas, não! Os defensores da incolumidade das estátuas querem também a incolumidade da narrativa estatal sobre tais acontecimentos. Porque as classes dominantes e os intelectuais que as babujam não têm o que revisar, não se arrependem de nada. À sacralização das estátuas é inerente, indissociável a sacralização em mármore, granito, ferro e bronze da história oficial, a história dos dominantes. Sem o contraponto da verdade dos fatos, as estatuas não só comemoram como perpetuam a barbárie.

E essa perpetuação da barbárie, dos açoites no pelourinho, da preação dos índios manifesta-se em reformas trabalhistas e previdenciárias espoliadoras, que aproximam o trabalhador livre do escravo. Acrescente-se a isso o teto dos gastos, limitando os investimentos em educação, saúde, saneamento, habitação, transportes e temos a mais perfeita tradução dos pensamentos, palavras e obras de nossas classes dominantes.

Enfim, não são as estátuas e os monumentos que cultuam o escravismo, o genocídio, o preconceito, a bestialidade que devem ser derrubados. São as classes que construíram e perpetuam esse estado de coisas que devem ser apeadas de seus pedestais.

(A aprovação, sob os aplausos entusiasmados dos dominantes, da mídia que os serve, de seus áulicos idiotizados da classe média- jornalistas, sobretudo – da privatização da água e do saneamento básico é uma ode triunfal a todas as estátuas de racistas e genocidas pátrios. Afinal, se hoje, 70 por cento das doenças infectocontagiosas que demandam o SUS são resultado da falta de saneamento básico – água e esgoto coletados e tratados – o que haverá de ser com esses serviços privatizados? E quem são as principais vítimas desse massacre. Os negros, os pardos, gente de sangue estranho, enfim).

 

José Benedito Pires Trindade

ex-Secretário de Comunicação Social do Governo Requião no Paraná.

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